Desinformação e checagem

A mamadeira de piroca existiu? O que realmente aconteceu em 2018

Foi o boato mais lembrado da eleição de 2018 e virou piada até fora do Brasil. Mas a pergunta que interessa é outra: por que tanta gente acreditou?

25 de agosto de 20264 min de leituracom fonte em todas as afirmações

O que o vídeo mostrava

No fim de setembro de 2018, em plena campanha de primeiro turno, começou a rodar no WhatsApp um vídeo curto. Um homem aparece segurando uma mamadeira com o bico em formato de pênis. A narração diz que aquele objeto estaria sendo distribuído em creches para crianças de cinco, seis anos, com a desculpa de combater a homofobia, e atribui isso a um dos candidatos à Presidência e ao partido dele.

O vídeo não tinha marca de escola, nota fiscal, nome de fabricante, cidade nem data. Tinha um homem, um objeto e uma frase. Foi suficiente.

Quanta gente viu

Muita. Numa das representações que a Justiça Eleitoral recebeu sobre o caso, o mesmo vídeo aparecia num único perfil com 4,9 milhões de visualizações e 96 mil compartilhamentos, segundo reportagem da Folha de S.Paulo que reconstituiu o episódio quatro anos depois. E aquele era um perfil entre vários.

Para dar tamanho: 96 mil compartilhamentos num só post significa que quase cem mil pessoas não só viram como decidiram passar adiante. Cada uma dessas pessoas tem grupo de família, grupo de trabalho, grupo de igreja.

O que a checagem encontrou

Nenhuma creche, nenhuma escola, nenhuma rede de ensino do país recebeu mamadeira desse tipo. Não existe compra pública, licitação, nota ou registro. O objeto do vídeo é um produto de sex shop, vendido em loja para adulto — não material escolar.

O vídeo se encaixava numa narrativa maior, a do chamado "kit gay", que também não era o que diziam ser. O Projeto Comprova, que reúne veículos de imprensa numa força-tarefa de checagem, apurou na época que as imagens atribuídas a esse suposto kit não faziam parte de material elaborado pelo Ministério da Educação. A gente conta essa história separada em outro texto, porque ela tem camada.

Quem inventou nunca foi identificado

Essa é a parte que mais incomoda. A origem do vídeo e o dinheiro por trás dos disparos em massa foram objeto de investigação, e não se chegou a conclusão definitiva. A CPMI das Fake News, instalada em 2019 justamente para investigar a distribuição de conteúdo falso na campanha de 2018, citou o episódio várias vezes nas audiências. Os trabalhos foram interrompidos no começo de 2020, com a pandemia, e o caso ficou em aberto.

A campanha atingida acionou o Tribunal Superior Eleitoral pedindo providências contra os perfis que espalhavam a mensagem. Um ministro chegou a oficiar os dois responsáveis, mas com o fim da eleição o processo foi suspenso.

Quem espalhou não achava que estava mentindo

Um dos homens que viralizaram o vídeo contou à Folha, anos depois, que recebeu o material pelo WhatsApp de alguém de quem não lembra, e que acreditou. O motivo que ele deu é o mais importante deste texto inteiro: ele acreditou porque antes já tinha circulado a história de uma cartilha ensinando sexo a crianças de cinco anos — o que também não era verdade.

Ou seja: uma mentira serviu de prova para a outra. É assim que funciona. Boato não convence sozinho; convence porque encontrou terreno preparado por outro boato.

Por que passou

Três coisas juntas fizeram o vídeo andar:

Como você teria pegado na hora

Sem ser jornalista, sem ferramenta nenhuma, só com o celular na mão:

  1. Busque a notícia no Google. Distribuição de mamadeira erótica em creche pública seria manchete de todo jornal do país. Se nenhum veículo grande publicou, não aconteceu.
  2. Procure o lugar. Que creche? Que cidade? Que rede? Boato quase nunca tem endereço, porque endereço pode ser conferido.
  3. Desconfie da mensagem que dá ordem. "Repassa para todos os pais" não é informação, é operação. Notícia real não precisa pedir compartilhamento.
  4. Consulte a checagem. Aos Fatos, Agência Lupa, Comprova e Estadão Verifica publicam de graça, e o próprio TSE mantém uma página de esclarecimento sobre boatos eleitorais.

Por que isso ainda importa

Porque o caso virou piada e a piada esconde o custo. Milhões de pessoas foram para a urna com uma informação falsa sobre o que aconteceria com os filhos delas. A conta desse tipo de mensagem não aparece em nenhum lugar, mas ela existe.

E porque o formato não morreu. Mudou de assunto. Hoje o mesmo mecanismo — objeto na mão, medo por criança, nenhum endereço verificável — aparece em vídeo sobre vacina, sobre escola, sobre urna. Quem reconhece a estrutura não precisa conhecer o assunto para desconfiar.

O que aprendemos com esse caso

Que boato não precisa ser verossímil para funcionar. Precisa ser assustador e chegar por alguém de confiança. O vídeo era absurdo, e justamente por isso quase ninguém imaginou que alguém teria coragem de inventar aquilo.

E que o custo real fica escondido. A piada durou anos; a decisão de voto tomada com informação falsa aconteceu uma vez e não tem como desfazer.

Fontes

  1. Projeto Comprova — imagens atribuídas a suposto "kit gay" não foram distribuídas em escolas — projetocomprova.com.br
  2. Aos Fatos — as dez checagens mais malucas publicadas pela agência — aosfatos.org
  3. Folha de S.Paulo — perfis que viralizaram o vídeo em 2018 (via Jornal de Brasília) — reportagem de 2022
  4. TSE — programa de enfrentamento à desinformação — tse.jus.br/fato-ou-boato

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