Desinformação e checagem

Quem checa os checadores? Como funcionam as agências de fact-checking

É uma pergunta justa, e tem resposta concreta. Existe regra, existe auditoria e existe como você conferir sozinho.

25 de agosto de 20264 min de leituracom fonte em todas as afirmações

O que uma agência de checagem faz, na prática

Não é dar opinião sobre quem está certo. É verificar se uma afirmação específica corresponde a registro verificável. A pergunta é sempre a mesma: isso foi dito? isso aconteceu? o documento diz isso?

Por isso a checagem séria nunca conclui "o político é bom" ou "a proposta é ruim". Ela conclui coisas chatas e limitadas: essa frase não foi dita, essa foto é de outro ano, esse número não está no relatório citado.

Como o trabalho é feito

O passo a passo é bem repetitivo:

  1. Recorta a afirmação. Uma frase por vez, exatamente como circulou.
  2. Vai na fonte primária. Diário Oficial, processo judicial, relatório, ata, transmissão completa, dado de órgão público.
  3. Procura a origem do material. Busca reversa de imagem, arquivo de publicação, data do primeiro registro.
  4. Procura quem é citado. Órgão, empresa ou pessoa mencionada é contatada para se manifestar.
  5. Publica o caminho. A checagem mostra onde cada informação foi encontrada, para você poder refazer o percurso.

Esse último item é o que separa checagem de opinião: você não precisa acreditar na agência, você pode repetir a apuração.

Quem fiscaliza

Existe um código internacional de princípios para agências de checagem, mantido pela rede IFCN, ligada ao Instituto Poynter. Agência que quer ser signatária passa por avaliação externa e assume compromissos verificáveis:

Não é selo de infalibilidade. É compromisso de método e de correção — que é o máximo que se pode exigir de qualquer trabalho humano.

Como você avalia uma agência sozinho

Cinco perguntas resolvem:

  1. A metodologia está publicada? Se não dá para saber como concluíram, não serve.
  2. Tem nome de gente? Equipe identificada, com histórico. Checagem anônima não vale.
  3. Diz quem paga? Financiamento aberto, com patrocinador e parceria listados.
  4. Corrige em público? Agência boa tem página de erros e mantém a correção no ar. Quem nunca errou publicamente é quem não conta.
  5. Checa dos dois lados? Se todas as conclusões favorecem sempre o mesmo grupo, o problema não é o método, é a escolha do que checar.

A crítica mais comum, e o que ela tem de verdade

A objeção que mais se ouve é que checador tem viés. E tem uma parte legítima aí: escolher o que checar é uma decisão editorial, e decisão editorial nunca é neutra. Se uma agência verifica dez frases de um lado e duas do outro, isso importa, mesmo que as dez estejam corretas.

O que não se sustenta é o passo seguinte, o de concluir que por isso tudo dá no mesmo. Dá para conferir a checagem: os documentos citados estão linkados. Quando quatro agências independentes chegam à mesma conclusão a partir das mesmas fontes primárias, a hipótese de combinação fica muito mais frágil que a hipótese simples de a informação ser falsa mesmo.

O que checagem não resolve

Vale ser honesto sobre o limite:

Onde consultar em português

Quatro iniciativas brasileiras publicam checagem aberta: Aos Fatos, Agência Lupa, Projeto Comprova — que reúne vários veículos numa força-tarefa — e Estadão Verifica. Em matéria eleitoral, o TSE mantém uma página própria de esclarecimento.

E quem checa este site?

Pergunta justa. A resposta é que aqui não se produz checagem: o FILTRO usa checagem que já foi publicada por essas agências e registro de órgão oficial. Cada uma das 30 histórias do teste tem fonte indicada no gabarito, com link, para você conferir por conta própria — inclusive quando a conclusão for desconfortável.

É por isso que a metodologia fica aberta no site: sem ela, este projeto seria só mais uma voz pedindo para você acreditar.

E a Justiça Eleitoral?

Em matéria de eleição existe uma camada a mais. O Tribunal Superior Eleitoral mantém um programa próprio de enfrentamento à desinformação, com página pública de esclarecimento sobre boatos relativos ao processo de votação, à apuração e às urnas.

É uma fonte de natureza diferente das agências: não é imprensa, é o próprio órgão que organiza a eleição explicando como o sistema funciona. Para quem quer conferir alegação sobre urna, prazo, registro de candidatura ou apuração, é o lugar onde está o dado de origem — e é a mesma base que este site usa quando a afirmação trata de procedimento eleitoral.

Fontes

  1. IFCN — código de princípios das agências de checagem — ifcncodeofprinciples.poynter.org
  2. Aos Fatos — checagens e materiais sobre desinformação — aosfatos.org
  3. Projeto Comprova — como apuramos — projetocomprova.com.br
  4. TSE — enfrentamento à desinformação (Fato ou Boato) — tse.jus.br/fato-ou-boato

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